Guilherme foi abandonado na roda, mas a sua história chegou até nós com um ramo de salsa

 Guilherme foi abandonado na roda, mas a sua história chegou até nós com um ramo de salsa

Protegido por uns trapos de linho, Guilherme foi o segundo bebé a dar entrada na roda dos expostos do Porto na movimentada noite daquele dia 18 de Abril de 1826, em que outros cinco recém-nascidos foram ali abandonados. Trazia, como muitos, um pequeno bilhete e um sinal que o identificava, caso um dia algum familiar o quisesse resgatar àquele destino. Mas em vez de uma fita, uma pagela de santo ou qualquer objecto de metal mais perene, quem ali o deixou confiou que umas simples folhas de salsa o livrariam de ser confundido.

Sabíamos do poder aromático e medicinal da salsa. Mas, ao vermos como aquele raminho resistiu quase dois séculos para nos contar um pouco da história de uma das milhares de crianças entregues na roda dos expostos do Porto, não podemos deixar de lhe creditar outros poderes. A planta-documento é um dos mais de 500 sinais que foram encontrados junto de relatórios de admissão dos enjeitados – as chamadas Partes da Directora – que eram diariamente escritos pelas responsáveis da Casa da Roda. Uma parte destes registos, do período entre 1813 e 1884, está agora disponível, graças a um projecto do Arquivo Distrital do Porto (ADP), financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Durante séculos, a Roda dos Expostos recolheu, alimentou e ajudou a criar – enviando para as chamadas amas de fora – milhares de crianças por esse país fora, nas cidades onde este mecanismo foi institucionalizado. No Porto, há registo de despesas do município, desde o século XVI, com as mulheres que criavam os enjeitados deixados à porta de igrejas e conventos na calada da noite. Mas só a partir do seculo XVII, mais precisamente a 6 de Julho de 1689, é que a cidade passou a ter uma casa dedicada a receber estes filhos que as mães não queriam, ou não podiam, criar. Era na Rua dos Caldeireiros, em frente ao Padrão de Santo Elói, com ligação directa ao já extinto hospital Dom Lopo.

A Roda foi mudando de morada e de gestão que, sendo inicialmente municipal, passou a ser da Santa Casa da Misericórdia – embora paga pelo município – até voltar às mãos da edilidade, em 1838. Mais tarde nesse século, o serviço, designado então Hospício dos Expostos, ficaria sob a alçada da Junta do Distrito, cujo arquivo foi herdado pelas futuras – e já extintas também, assembleias distritais. Foi na antiga sede desta, na Rua Antero de Quental, que todo este espólio se conservou – um termo mal empregue, dadas as inadequadas condições – até que há três anos se iniciou o processo de transferência de todo este material – mais de 181 metros lineares de documentos – para o Arquivo Distrital.

Mais do que uma métrica quantificável, o trabalho de limpeza e tratamento desse acervo, seguido da organização, descrição e digitalização de uma parte do mesmo, pôs os técnicos e responsáveis pelo AdP em contacto com a biografia, ou parte delas, de milhares de pessoas. “Eram bebés, só queriam colinho, e foram abandonadas”, reflecte Sónia Gomes, que se pôs a ler, para descrever, as partes da directora, com os seus sinais e piedosas mensagens, numa altura em que regressava ao arquivo depois de uma licença de maternidade.

Graças ao trabalho da equipa liderada pela directora do ADP, Maria João Pires de Lima, podemos consultar (presencialmente ou online), mais de oito mil processos de entrada na Casa da Roda. Podemos ficar a saber um pouco da história de Guilherme, de Augusto, de Carlota, de Albino (que ali entrou com um galão preto), de Joaquim Arnaldo (entregue com uma fita cor-de-rosa) e Barnabé, os bebés identificados no relatório da directora do trabalhoso dia 18 de Abril de 1826, documento esse que inclui ainda a entrada de Francisca, já do dia anterior.

Imagina-se, pelas descrições existentes em várias fontes – que não há representações do interior da casa – que nessa, como noutras noites, as amas de leite, dormindo ali mesmo, junto à roda, eram acordadas pelo soar de uma campainha activada pela rotação do mecanismo. E assim, madrugada dentro, aquelas mulheres começavam a cuidar dessas crianças, muitas delas em estado muito debilitado e que acabavam por morrer ao seu cuidado nas horas seguintes. As que sobrevivessem eram entregues a uma família, a da ama de fora, escolhida em concelhos dos arredores do Porto, sempre no campo,  e identificada também nos registos de saída da casa. E, a partir dos sete anos, podiam passar a viver com essa família, se esta tivesse vontade e condições para tal, ou ser entregue a uma outra.

O arquivo da Casa da Roda abre-nos a porta para o universo quase secreto daquela instituição só de mulheres, e liderada por essa figura tutelar, a ama-seca, ou directora. Segundo as historiadoras Inês Amorim – responsável pelo mestrado em História e Património da Faculdade de Letras da Universidade do Porto – e Patrícia Alves, que frequentou aquele curso, esta escrevia para cada exposto um escrito com os dados principais, que era colocado nos berços, escrevia também a parte, e fazia um mapa diário e mensal de entradas e saídas. Além de tudo isto, cabia-lhe escolher as amas mais confiáveis para recolher os expostos, assistir aos baptismos, e colocar, ao pescoço daqueles bebés, uma medalha com o seu número de identificação, para além de um sem número de tarefas ligadas à logística da própria casa.

 

Abel Coentrão| Jornal Publico

Fonte| http://www.publico.pt/local/noticia/guilherme-foi-abandonado-na-roda-mas-a-sua-historia-chegou-ate-nos-com-um-ramo-de-salsa-1672549#/0

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