Dez por cento das queixas de violência doméstica são de jovens com menos de 16 anos

 Dez por cento das queixas de violência doméstica são de jovens com menos de 16 anos

Entre os adolescentes, a violência difere da violência conjugal onde as vítimas são esmagadoramente mulheres, segundo a Associação Democrática de Defesa dos Interesses e da Igualdade das Mulheres, responsável pelo projecto Educação+.

A presidente da Associação Democrática de Defesa dos Interesses e da Igualdade das Mulheres (ADDIM) disse esta quinta-feira que das 27.318 queixas de violência doméstica apresentadas em 2013, 10% foram participadas por menores de 16 anos.

Em declarações à Lusa, Carla Mansilha Branco defendeu “a necessidade de começar este trabalho de sensibilização contra a violência doméstica na adolescência”, estando, por isso, a associação a desenvolver desde Outubro o projecto Educação+, que envolve 1100 alunos de escolas do concelho do Porto. Segundo a presidente da ADDIM, “a violência nas relações de namoro assume entre os jovens valores inquietantes de vitimização e de perpetração. No namoro há muita violência e os agressores são os rapazes, mas também as raparigas”.

A responsável acrescentou que neste caso “a violência é bi-unívoca, difere do contexto de violência conjugal onde as vítimas são esmagadoramente mulheres.” O projecto Educação+ terminará no final do presente ano lectivo e constará de 13 sessões de esclarecimento com especialistas, divididas pelos três períodos escolares.

Perceber os alertas
A dirigente da ADDIM espera conseguir “que no final os jovens sejam capazes de perceber os sinais de alerta de uma situação de violência no namoro ou debullying, e que eliminem comportamentos assentes em crenças, tais como ‘ciúmes é prova de amor’, ou que se deve responder à violência com violência”.

E, para que sejam capazes de reagir perante estes sinais, pretende-se que os jovens em idade escolar consigam “desenvolver competências comunicacionais que lhes permitam resolver os conflitos tendo por base o diálogo e a assertividade”. A presidente da instituição de solidariedade social referiu que nos últimos anos o combate à violência doméstica tem sido feito utilizando estratégias de intervenção secundárias e terciárias, isto é, atacando o problema quando ele já está instalado. O trabalho que está a ser levado a cabo pela ADDIM “privilegia a detecção precoce de sinais de violência e a intervenção imediata”.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, factores como as características biológicas, a influência parental e comunitária, drogas ou gangues são determinantes para o jovem desenvolver comportamentos violentos.
No entender de Carla Mansilha Branco, a resposta a este fenómeno passa pela “consciencialização para as consequências de actos violentos e a escola constitui-se como um espaço onde esses comportamentos são evidenciados, uma vez que é lá que grande parte dos jovens passa mais tempo por dia”.

“É um espaço de transmissão de saberes e aprendizagem, mas também o palco onde se desenvolvem as primeiras amizades, relacionamentos amorosos e onde são aplicados os valores culturais e educacionais que lhes são transmitidos pelo meio em que se inserem”, sublinhou a responsável da ADDIM.

Projecto em escolas
O projecto Educação+ está a decorrer nas escolas Alexandre Herculano e Cerco, no Porto, e de Valadares, em Vila Nova de Gaia. Carla Mansilha Branco referiu que “neste momento 32 mulheres foram assassinadas em Portugal por homens com quem partilhavam a vida. Em 2013, foram registadas 27.318 participações”.

“O número de denúncias aumenta e aumentam os homicídios, há maior visibilidade e as pessoas estão mais consciencializadas. Não sabemos se há mais violência doméstica ou se há mais visibilidade do fenómeno”, sublinhou.

De acordo com a responsável, a maior parte das vítimas de violência doméstica só apresenta queixa, em média, passado 13 anos, o que significa que “há mulheres 20, 30 e 40 anos a viver numa relação em que aguentam todo o tipo de torturas e maus tratos”.

Carla Branco considerou que “a legislação protege as vítimas, mas falha na aplicabilidade e celeridade dos processos. No fundo há um desfasamento entre a lei e o tempo de vida da vítima”. A ADDIM é uma das associações que trabalham no apoio às vítimas de violência doméstica que participam, no próximo dia 22, no Porto, numa marcha contra a violência doméstica e de género.

 

Lusa| Jornal Público

Fonte| http://www.publico.pt/sociedade/noticia/dez-por-cento-das-queixas-de-violencia-domestica-sao-de-jovens-com-menos-de-16-anos-1676124

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