Camila pensava que ia para o hospital mas foi ao oceanário
Os olhos da Camila, uma menina cabo-verdiana de dez anos, doente oncológica, não escondem o espanto assim que se depara com o Oceanário de Lisboa. É a primeira vez que vai ver “os peixes”. O desejo de Camila foi realizado este mês de Fevereiro e faz parte de uma longa lista de “sonhos” que têm sido concretizados pela Fundação Make-a-Wish.
Este é um dia diferente para Camila. Levantou-se à mesma hora de sempre mas em vez de seguir para um tratamento de quimioterapia no Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa, seguiu para o Oriente, rumo ao Oceanário. Em vez da habitual corrida casa-hospital, hospital-casa, desta vez o destino foi o enorme aquário.
“Olha a Dory do Nemo”, exclama, assim que entra e observa um peixe-azul, aludindo a uma das personagens do filme que foi sucesso de bilheteira em 2003. Pede para se levantar da cadeira de rodas e, quase como que por impulso, encosta a pequena mão ao vidro do grande aquário, para tocar na Dory. A aventura de Camila em Portugal começou em Junho de 2012 quando deixou Cabo-Verde por causa de um tumor no sistema nervoso central.
No seu país, os médicos não conseguiam descobrir de que forma poderiam ajudá-la, apesar dos muitos exames que fez. Foi por isso que, mediante a avaliação do caso clínico, a encaminharam para Portugal há dois anos. Entre tratamentos de quimioterapia, que fizeram com que perdesse o cabelo, e de fisioterapia, durante todas as semanas, a menina quase não tem tempo para brincar. Também não contacta com crianças da sua idade, uma vez que ainda não anda na escola. “Primeiro tivemos alguns problemas porque não havia professores. Depois não havia transporte”, explica a mãe, Antónia Fontes.
Mas, neste dia de Fevereiro, Camila está contente. Afinal não é todos os dias que vai a um sítio novo. “Pensava que ia para o hospital mas vim ao oceanário”, diz com um sorriso nos lábios. Foi através do IPO que Antónia Fontes conheceu uma forma de surpreender a filha. “Falei com a assistente social que me deu um papel e entraram em contacto com a Camila e comigo. Perguntaram-me que tipo de actividades gostava de realizar e foi então que entrei em contacto com a Leila Gomes e com a Sara Ribeiro da fundação Make-a-Wish”, conta.
Leila Gomes explica que Camila estava indecisa entre uma visita ao Oceanário ou ao Jardim Zoológico. “A Camila gosta muito de peixes e disse que nunca os tinha visto”, diz uma das voluntárias que acompanhou a menina na concretização do seu desejo.
Um dia mágico
“O IPO de Lisboa fala sobre a Make-a-Wish às crianças e estas formulam um desejo. Esta instituição é o intermediário entre as crianças e as organizações; os voluntários falam com as famílias e perguntam-lhes de que forma podem tornar mágico o dia da criança”, explica Sofia Pascoal, do Gabinete de Comunicação da Make-a-Wish.
No caso específico de Camila, a ajuda resultou de um trabalho conjunto entre a Make-a-Wish e a Best Doctors, uma empresa privada criada com o objectivo de oferecer a todos os que enfrentam problemas de saúde o acesso privilegiado aos melhores médicos do mundo. “A primeira parceria que temos é com a Make-a-Wish”, informa Joana Andresen, da Best Doctors. A parceria começou em Dezembro passado. “O valor monetário é dado para várias acções e escolhemos os desejos em que achamos que nos enquadramos melhor”, acrescenta.
A mãe de Camila tenciona regressar com a filha a Cabo Verde, quando os tratamentos terminarem. “É lá que tenho dois filhos que estão na escola; tenho lá a minha vida e o meu trabalho”, diz acrescentando que ainda não tem data marcada para regressar.
Agora, por cá, os sons de fundo dos animais marinhos do oceanário enchem os ouvidos de Camila enquanto os olhos se regalam com espécies de peixes diferentes. Uns bonitos, outros feios. Uns estranhos, outros comuns. “O que é isto, Camila?”, questiona Leila Gomes enquanto aponta para um peixe branco. A menina encolhe os ombros sem conseguir identificar o peixe-lua. Camila não faz perguntas, apenas ouve e observa.
Ver os One Direction ou Cristiano Ronaldo
Leila Gomes e Sara Ribeiro são duas dos 230 voluntários que estão espalhados por todo o país. A Make-a-Wish estende a sua acção a hospitais da zona metropolitana de Lisboa e do Porto, aos IPO, ao Hospital Pediátrico de Coimbra, ao Hospital de Faro e Portimão e, mais recentemente, aos hospitais de Viseu, Torres Novas, Funchal e Angra do Heroísmo.
“Com o desejo da Camila, já são 326 desejos os realizados”, afirma a responsável pela comunicação da Make-a-Wish, Sofia Pascoal. Entre os desejos mais invulgares, Sofia conta a história de duas crianças que visitaram o Papa Bento XVI, em 2012 e o Papa Francisco, em 2013. Entre os mais pedidos e que já foram realizados está a vontade, sobretudo de rapazes, em conhecer diferentes jogadores de futebol, entre os mais procurados está, claro, Cristiano Ronaldo.
Apesar de já ter sido realizado um número considerável de desejos pela Make-a-Wish, “a instituição tem ainda 90 por realizar”, acrescenta Sofia Pascoal. Na lista dos desejos que ainda não se concretizaram contam-se uma “ida à Euro Disney e o contacto com os cantores da banda juvenil One Directon”, afirma. Por vezes, há crianças que querem ter um objecto novo mas, ao mesmo tempo, querem realizar um desejo. Sofia Pascoal exemplifica a forma como o processo decorre. “Nunca damos só um objecto. Já tivemos um caso de uma menina que queria uma Playstation, mas que no futuro gostaria de ser bombeira. Fizemos com que fosse um bombeiro a oferecer-lhe uma Playstation”.
Foi em 2007 que a Make-a-Wish iniciou a sua actividade em Portugal. Há 34 anos nasceu nos EUA e já realizou 330 mil desejos em todo o mundo. “A cada 23 minutos, um desejo Make-a-Wish é realizado no mundo”, declara Sofia Pascoal.
Para Camila, a surpresa não se resumiu a uma ida ao Oceanário. A menina teve ainda direito a dois presentes, um Pato Donald e a uma Barbie. No final da visita, estava cansada mas satisfeita. “Estou muito contente com o dia de hoje”, disse entusiasmada.
Ana Isabel Mendes | Público