AFS. Elas quiseram ser portuguesas durante um ano

 AFS. Elas quiseram ser portuguesas durante um ano

Este ano, cerca de 100 jovens estrangeiros decidiram ser parte de uma família portuguesa. O i falou com três estudantes e com as famílias que as acolhem sobre a experiência

Ece, turca, Bw (lê-se Biu) da Tailândia e a americana Saphia escolheram Portugal. Não para visitar ou para seis meses de Erasmus, mas para, durante um ano, serem portuguesas. Ao abrigo do programa de intercâmbio AFS foram acolhidas como filhas por uma família e vão estudar durante um ano numa escola secundária. Com as suas novas famílias, contam a experiência ao i numa conversa entre o inglês e o português que estão a aprender todos os dias.

PRIMEIRAS IMPRESSÕES As três concordam numa coisa: o mais difícil foram as primeiras semanas em que ainda não percebiam nada de português. Depois da língua, o mais difícil foi habituarem-se ao “hábito mais estranho dos portugueses”, segundo Saphia – cumprimentar-se com beijinhos. Bw concorda, contando que na primeira semana, confusa com um amigo que a queria cumprimentar, rejeitou “beijinhos”. Ece, turca, está habituada a este cumprimento, mas mesmo assim foi complicado. “Na família do Rui dão dois beijinhos, e na família da Rita dão um, mas alguns dão dois para ser simpáticos” (Rita e Rui são o casal que a acolhe). “Dois ou um? É uma grande confusão”, diz Ece. Às vezes também para os portugueses.

A comida portuguesa parece ter compensado o facto da língua ser difícil. Bw aprecia bacalhau à Brás. Saphia adora os pastéis de nata e Ece “tudo”. Para a jovem turca o seu ano em Portugal tem sido uma experiência gastronómica maravilhosa: “A comida é perfeita, o mais importante”. Conta, feliz, que quando chegou decidiu experimentar tudo, e para prová-lo tem os seis quilos que já ganhou desde o início deste ano lectivo.

Alguns terão sido ganhos no seu primeiro Natal. É muçulmana não-praticante. Gostou muito das festas “só com família e com muitas comidas” e dos cânticos em casa da sua mãe de acolhimento. Bw, budista, também apreciou os “milhares de doces” do Natal, que passou numa pequena vila alentejana, de onde é a sua “mãe”. E onde ficou surpreendida por todos se cumprimentarem com “bom dia” e “boa tarde” sempre que se cruzavam.

Bw, de 16 anos, conta que “na Tailândia as pessoas são mais tímidas e reservadas”, pelo que estranhou os expansivos portugueses. Agora descreve-os como “very friendly and very cute”. Já Ece, com 18 anos, diz que não foi difícil habituar-se aos portugueses. “Acho que são parecidos aos turcos”, defende. Para Saphia, de 15 anos, a fama de simpáticos foi a principal razão para escolher Portugal. Na escola, esta americana também foi bem recebida. Foi a primeira vez que o Externato Marista de Lisboa recebeu uma aluna estrangeira, todos a querem ajudar e têm muitas perguntas.

Para Ece foi mais difícil: eram poucos os alunos da Escola Secundária Fernando Lopes da Graça, na Parede, que falavam inglês. Além disso, habituados a estudantes de intercâmbio, não pareciam estar muito entusiasmados com a chegada de mais uma estrangeira.

ACOLHER As famílias que as acolhem também se habituaram a viver com mais uma “filha”. Para Rita e Rui, que não têm filhos, acolher Ece implicou a mudança de algumas rotinas, como tentar jantar sempre em família. “Muitos dos nossos amigos perguntam porquê”, porque é que acolhem se nem recebem nada em troca, conta Rui. Agora que conhecem Ece já percebem melhor: “Todos ganham e é uma cultura diferente que entra na nossa casa”.

A mãe de acolhimento de Bw, Célia, garante que acolher “não é complicado e enriquece muito”, além de ser a forma mais fácil das filhas aprenderem inglês. Acolher Saphia também foi simples visto que a família já tinha duas filhas e uma foi fazer AFS para a Noruega.

Os estudantes e as suas famílias parecem corresponder-se: Saphia integra-se bem na sua família e partilha amigas com a sua “irmã” Mónica, Ece é expansiva e faladora, com pais divertidos e jovens, e o facto de Bw ser mais reservada e calma parece agradar à sua família. Célia e Paulo já acolheram também uma chilena e uma alemã e Bw é já a segunda jovem da Tailândia que recebem. “Vêm com outras regras”, gostam de ajudar e têm “mais sentido de família e de responsabilidade”, diz Célia das jovens tailandesas.

As famílias ficam a ganhar com mais uma filha, mas as jovens ganham mais. A experiência de AFS é algo que quem faz nunca esquece. Cada experiência é única e pertence só a quem a faz, até porque é vivida longe do mundo que se conhece. “Crescemos mais rápido do que se estivéssemos no nosso país porque tudo é muito diferente”, explica Ece. “Percebi que estava cheia de preconceitos”, diz. Ao vir para Portugal e sair da sua rotina começou “a perceber as pessoas e as suas vidas”, comecei “a respeitar” as diferenças, conta Ece. O que tem tudo a ver com a própria história e filosofia da AFS.

Sara Amorim Queirós| Jornal i

Fonte| http://www.ionline.pt/artigos/portugal/afs-elas-quiseram-ser-portuguesas-durante-ano/pag/-1 

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