O Serviço Social no campo da Gerontologia – desafios e possibilidades

Nos últimos anos a pertinência da Gerontologia enquanto área de conhecimento e de intervenção, de natureza multidisciplinar, tem vindo a justificar-se cada vez mais, pelas exigências que se colocam a todos os cidadãos numa sociedade progressivamente envelhecida.

A Gerontologia pode ter um enfoque biológico, psicológico, ou social, conforme se estabeleça a ênfase nos aspectos biológicos, psicológicos ou sociais. Não obstante, nenhuma destas dimensões pode ser descurada em nenhuma área de investigação e de intervenção.

Apesar de a Gerontologia do ponto de vista social não poder deixar de ter em conta os contributos das ciências biológicas e psicológicas, a sua ênfase é sobretudo nas ciências sociais – sociologia, educação, política, ciências ambientais, serviço social direito, economia, etc.

Assim, o profissional do campo da Gerontologia Social deve ter conhecimentos biopsicossociais da velhice e do envelhecimento, quer para compreender, quer para aplicar esses conhecimentos em prol das pessoas idosas, sendo necessário também considerar outros âmbitos, como a política, a planificação social, a arquitectura, a legislação, etc.

Estes conhecimentos passam pela análise de i) estudos referentes ao comportamento sociodemográfico das populações (ecologia humana, geografia humana, demografia); ii) estudos científicos que analisam as diferenças sociais, culturais, económicas e ambientais (entre outras) do envelhecimento e da velhice; iii) condições políticas, jurídicas, económicas, educativas, ambientais e sociais, que permitam melhorar a qualidade de vida e o bem-estar das pessoas idosas (García e Jiménez, 2003; Ribeirinho, 2013; 2016).

Para além deste manancial de conhecimentos, requer-se aos profissionais da intervenção em Gerontologia Social a aplicação criativa e contextualizada de todos os conhecimentos derivados destes anteriormente referidos, em benefício das pessoas idosas e no sentido do seu desenvolvimento pessoal, bem-estar e qualidade de vida.

Podemos assim sintetizar, dizendo que a Gerontologia Social é a especialização da Gerontologia que para além de se ocupar do estudo das bases biológicas, psicológicas e sociais da velhice e do envelhecimento, está especialmente dedicada ao impacto das condições sócio-culturais, políticas e ambientais no processo de envelhecimento e na velhice, nas consequências sociais desse processo, assim como nas acções sociais, culturais, educativas, etc., que podem realizar-se para melhorar os processos de envelhecimento (Férnandez-Ballesteros, 2000).

Dentro desta área social situamos particularmente o Serviço Social Gerontológico[1] que se situa dentro da disciplina científica e profissão Serviço Social, enquanto campo profissional que contribui para o estudo e intervenção sobre o envelhecimento (García e Jiménez, 2003; Ribeirinho, 2013; 2016).

Enquanto profissão e disciplina científica da área das ciências sociais implicada no conhecimento do processo do envelhecimento e da velhice, o Serviço Social tem dado, ao longo de mais de um século de existência, importantes contributos para a investigação e intervenção com as pessoas idosas. “Participa na elaboração e implementação de políticas públicas, traduzidas em planos, programas e projectos, que geram mudanças pessoais ou de condições ambientais, com orientação preventiva, assistencial ou promocional / transformadora (…)” (García e Jiménez, 2003: 48).

Trata-se, pois, de uma intervenção profissional intencionada e científica (e portanto racional e organizada), na realidade social das pessoas idosas, para conhecê-la e transformá-la, contribuindo com outras profissões para atingir o bem-estar desse colectivo, entendendo-o como um sistema global de acções que, respondendo ao conjunto das aspirações sociais, elevam o desenvolvimento do bem-estar humano nos processos de mudança social individuais, familiares e/ou comunitários (ibidem).

Partindo do pressuposto de que o grupo das pessoas idosas não é homogéneo, nem o são os efeitos em cada indivíduo, a intervenção social no campo da Gerontologia visa a pessoa idosa (individual ou colectivamente) que, em interacção com um meio concreto, vive uma situação determinada como necessidade ou como desejo de a melhorar e que quer superar e desenvolver a sua funcionalidade social, cooperando na transformação da situação, das circunstâncias que a geraram, e sobretudo, desenvolvendo as suas potencialidades numa perspectiva positiva (ibidem).

Em suma, o Serviço Social gerontológico é o conjunto das contribuições científicas, profissionais, docentes e de formação, próprios da disciplina, destinadas a conhecer e transformar as necessidades sociais das pessoas idosas, a análise e melhoria do sistema de bem-estar social e a configuração das políticas sociais a elas dirigidas.

Para além das naturalmente exigíveis competências teórico-metodológicas, técnico-operativas e ético-políticas requeridas aos profissionais deste campo, destacamos a capacidade de olhar as situações de forma multi-perspectiva (micro, meso e macro) e transcultural, a abertura permanente à aprendizagem e também o humor, a auto-crítica e a perseverança.

Gerontologia social: um desafio transdisciplinar

Apesar do enfoque social aqui tomado em consideração, cremos que a intervenção e investigação na área da Gerontologia não podem ser desenvolvidas em situação de isolamento. A complexidade e heterogeneidade dos desafios que atravessam este campo exigem dinâmicas de trabalho em equipa interdisciplinar, intersectorial e em rede. O trabalho colaborativo é um elemento‑chave no trabalho com pessoas idosas (Beech e Ray, 2009), sobretudo aquelas que se encontram em situação de maior vulnerabilidade e/ou dependência. Defender a multidisciplinaridade ou a integração de saberes, significa partilhar o poder do saber ou desejar partilhá-lo.

Neste sentido, tendo em conta a complexidade dos fenómenos com os quais os profissionais da área da Gerontologia trabalham, é requerida a articulação com outras áreas disciplinares onde os saberes possam cruzar-se, em ordem a um melhor conhecimento e intervenção, numa perspectiva holística e integrada das dimensões biopsicossociais e espirituais do ser humano.

 Os desafios prementes da Gerontologia e do Serviço Social gerontológico

No cenário sóciodemográfico actual, os profissionais da área da Gerontologia confrontam-se com situações cada vez mais complexas, com uma multiplicidade e diversidade de problemas profissionais, económicos, financeiros e organizacionais. Uma atitude profissional que não tenha em consideração a incerteza, instabilidade e a complexidade da realidade social, responde com aquilo que conhece – o tácito, o experiencial, o técnico ou o científico – fazendo com que a realidade se ajuste à sua ideia pré‑fabricada, ao invés de reflectir, escutar, debater e intervir a partir do que na realidade acontece. É neste sentido que consideramos que a necessidade de formação especializada em Gerontologia é talvez agora maior que nunca, em tempos de grandes mudanças. Neste sentido, se o Serviço Social quer enfrentar as exigências da sociedade contemporânea e dos novos perfis de pessoas idosas que começam a emergir, precisa de aprimorar as suas dinâmicas reflexivas e de formação, de forma sistemática e consistente, nos diversos contextos institucionais em que está inserida.

Neste sentido, defende-se a necessidade de formação contínua e supervisão profissional de todos quantos intervêm na área do envelhecimento e das pessoas idosas (Gerontologia), a qual decorre da crescente complexidade das situações apresentadas aos profissionais nesta área. Intervir na área da Gerontologia envolve esforço mental, psicológico e muitas vezes físico, transformando este campo numa encruzilhada de dimensões teóricas, metodológicas, éticas, políticas e técnico-operativas de grande complexidade. Por outro lado, as dinâmicas desenvolvidas nestes contextos podem, não raras vezes, fragilizar os níveis de reflexividade dos profissionais. Esta situação pode também conduzi-los para uma disposição normativa em relação à prática, baseada em lógicas de focalização nos resultados, de quantificação da intervenção, de burocratização e de aceleração dos processos de intervenção, desumanizando-os, o que se traduz num conjunto de circunstâncias ideais ao desenvolvimento de práticas estéreis e descentradas dos sujeitos destinatários da intervenção (Webb, 2006; Ribeirinho, 2013).

Ao desenvolverem o seu trabalho num contexto marcado pela dinamicidade e pela transitoriedade do conhecimento, a necessidade de aprendizagem permanente é um imperativo no sentido da reconfiguração das práticas através de um processo de (re)construção crítica dos saberes. Desta forma, defende-se a necessidade de uma reflexividade crítica e formação permanente, que se contrapõe a uma visão aplicacionista do conhecimento e que acompanhe as exigências das pessoas mais velhas, de forma holística.

A conquista civilizacional que representa o envelhecimento colectivo é um fenómeno que a todos diz respeito e não apenas aos profissionais da área da Gerontologia e do Serviço Social. Do esforço concertado de todos os agentes – cidadãos, investigadores e interventores aos mais diversos níveis, decisores, ou seja, da sociedade como um todo, dependerá um futuro que possa garantir o maior desígnio da existência humana: o de envelhecer com dignidade e felicidade.

[1] Por ser a nossa filiação profissional, de formação, de intervenção e de investigação e também pela sua relevância no campo da Gerontologia Social.

 

Bibliografia

Beech, Christian e Ray, Mo (2009), “Older people” in Adams, Robert et al. (coords.), Critical Practice in Social Work (2nd ed.). Hampshire: Palgrave Macmillan, pp. 356-367.

Fazenda, Ivani (2003), Interdisciplinaridade: História, teoria e pesquisa (11ª ed.). Campinas: Papirus.

Fernández-Ballesteros, R. (dir.) (2000), Gerontología Social. Madrid: Pirámide.

Hawkins, Peter e Shohet, Robin (2012), Supervision in the Helping Professions (4th ed.). Milton Keynes: Open University Press.

Ribeirinho, Carla (2012), “(Re)criar a Intervenção gerontológica” in Moura, Cláudia (org.), Processos e Estratégias do Envelhecimento, Porto, EUedito, pp. 51-63.

Ribeirinho, Carla (2013), “Serviço Social Gerontológico: Contextos e práticas profissionais” in Carvalho, Maria Irene (coord.), Serviço Social no Envelhecimento. Lisboa: Pactor.

Ribeirinho, Carla (2016), “Serviço Social e novos desafios face ao envelhecimento” in AAGI, Repensar o Envelhecimento em Portugal, Lisboa, Associação Amigos da Grande Idade – Inovação e Desenvolvimento, pp. 103-111.

Webb, Stephen (2006), Social Work in a Risk Society: Social and political perspectives. New York: Palgrave Macmillan.

 

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