Campanhas Mercantilícias no Natal
A ilusão criada pelas luzes cintilantes que pululam por aí e tornam mais belos os nossos dias em Dezembro, não transformam a solidariedade filantrópica em solidariedade social democrática.
Não se deixem ofuscar nem iludir com as campanhas das grandes cadeias comerciais, que são pouco mais do que publicitação do seu carácter solidário usando a boa vontade e ingenuidade dos clientes, em vez dos seus lucros, para contribuírem para causas próprias: criar a ilusão de que são solidários. Curiosamente gostaria muito de saber quanto custam as campanhas publicitárias para comunicarem ao mundo a sua solidariedade natalícia. Não há aqui responsabilidade social, mas irresponsabilidade e trapaça.
A solidariedade filantrópica funda-se na hierarquização social, na dádiva que destitui a dignidade cívica, criando identitariamente inferioridade e até humilhação, no paternalismo, na moralização, na manutenção e reafirmação das desigualdades sociais.
É com este tipo de solidariedade que queremos ser solidário/as?
Ando fartinha de campanhas mercantalícias – desculpem, – natalícias, ano após ano, sempre a prometerem a transformação de muitos mundos de ilusões, mas sem que tais organizações tão “solidárias” se comprometam com o pagamento dos seus impostos e com a redistribuição do rendimento, pagando dignamente aos seus trabalhadores, por exemplo. Se as campanhas de natal resolvessem alguma coisa, já nem tínhamos problemas sociais com tanto natal…
Enquanto assistente social sinto esta permanente inquietação e até indignação com a falta de crítica e de auto-crítica perante tanta campanha ilusória, apesar de respeitar quem acredita na dádiva solidária.
A solidariedade social que defendo assenta noutros princípios: na criação de um laço social coeso, almeja a justiça social e a igualdade entre os cidadãos. Não convive com a desigualdade enquanto valor socialmente aceite ou aceitável. Também esta solidariedade democrática necessita de ser reinventada, sim, mas sem ilusões criadas por luzes natalícias.
Com que tipo de solidariedade é e quer ser solidário/a?